Quarta-feira, 29 de Outubro de 2008

3 momentos de uma barca

 

 

>  a partida – a travessia – o regresso:

 
Na partida o desejo e a dor, desejo impaciente de tudo o que ainda esteja por conhecer, dor de perder o que se conhece. Na travessia, as dúvidas e as incógnitas que se erguem como o adamastor: nem sempre a barca navega num Mar de Rosas. E no regresso? No regresso sobretudo o receio e o desacerto: por quanto tempo conseguirei permanecer esse homem novo que vim a conhecer durante a travessia sem cair no adormecimento e na vontade de reavivar o outro que conhecia e já me assentava que nem uma luva mas deixou de me servir... e quantos compreenderão que eu assim queira permanecer, outro, sempre outro diferente?  [jfx]
artistas residentes [OD]:
[OD] às 21:12
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Quinta-feira, 16 de Outubro de 2008

8e; 5b; 10j...

 

... 3 barcos ao fundo?

 

 

Até ao Verão ainda acreditei que seriamos capazes de tirar esta barca do lamaçal e pô-la a navegar. Cada um de nós remava para o seu canto mas a viagem ainda parecia comum – a falta de unidade podia até ser um factor acrescido de interesse, uma mais-valia como se costuma dizer hoje. Não se pretendia fazer uma exposição[zeca] com os quadrinhos todos bonitinhos uns ao lado dos outros, bem referenciados [ o seu a seu dono e trá-lá-lá...], mas sim algo que fosse para além da mera presença individual de cada um dos artistas e que, destacando-se pela diferença em relação às abordagens habituais,   não deixaria no entanto de revelar o contributo de cada um deles.
 
Infelizmente quer me parecer que não é apenas unidade que falta mas sim união. Ao trabalhar todo o material vídeo e sonoro que recolhi desde o início do ano e que pretendíamos viesse a ser um dos elementos catalisadores [juntamente com um texto que entretanto deixou de haver] não consigo pressentir essa união. Encontro momentos díspares, dinâmicas e entusiasmos dissemelhantes e sinto que de facto, neste projecto que nos poderia ter levado tão longe arriscamo-nos a não chegar a lado nenhum.
 
Outras prioridades, atrapalhações e dificuldades, muitas delas alheias ao trabalho do pintor/artista acabaram por interferir neste processo e conferir-lhe um peso quase insuportável. No post anterior perguntava-me a mim mesmo se valeria a pena o esforço. E volto a frisar o que disse porque não creio que tenha surtido efeito à primeira: num lugar onde aparentemente haveria mais hipóteses de criar um projecto bem sucedido acabamos por esbarrar em mesquinhices e criar ainda mais entraves e hesitações do que aqueles com que me confrontei no Brunei onde imperava uma mentalidade malaio-islamica determinada em afundar todo e qualquer projecto que incomodasse o statu quo.
 
Deus terá dado a noz a quem não tem dentes?    
 
Talvez, para poupar esforços e o que quer que se possa salvaguardar mais, o melhor seja assumir o que fizeram já os meus companheiros de viagem: remar para o meu canto.
 
Será que teremos exposição?   [jfx]

 

 

artistas residentes [OD]:
Domingo, 6 de Julho de 2008

Quantas vezes revisitada? Quantas vezes renovada?

 

 

 
 
 
 
Em Abril 2005, após quatro anos de trabalho persistente e subtis diplomacias,  14 artistas residentes no Sultanato do Brunei juntaram-se para trabalhar num projecto comum. O tema que reuniu o consenso de todas as partes – quebrando finalmente o gelo e atraindo a participação de 9 artistas do sultanato – foi justamente uma barca.
 
O projecto [x?]artists–one boat visava explorar o significado que cada artista atribuía à nave propriamente dita, para além das suas formas e funções conhecidas, procurando chegar mais próximo da essência do que seja uma barca.
 
No início, este [x?] era apenas uma variável em função do número de artistas que, vencendo os preconceitos e os temores prevalecentes e bem reais, aceitariam dar a cara e comparecer na galeria correndo o risco de violar as leis e os costumes vigentes. Foi só quando todos estávamos a bordo, e a barca a navegar, que vim a descobrir o seguinte poema de Octávio Paz que transcrevo em parte:
 
‘...Caminhamos por onde nunca andámos, no ponto de encontro disto e daquilo, aqui e agora. Somos a intersecção, o X, o moinho maravilhoso que nos multiplica e que nos questiona. O moinho que ao girar descreve um Zero: ideograma do Mundo e de cada um de nós...
 
A censura compareceu, bem se esforçou por encontrar qualquer coisa... e acabou por nos deixar seguir viagem. Foi para todos – artistas e público - um momento de suprema alegria: numa Monarquia Absoluta Islâmica, onde a religião e a política andam de mãos dadas e onde à partida tudo parecia impensável, Budistas, Cristãos, Hindus e Muçulmanos ‘falaram’ entre si através das suas visões de uma barca.
 
Ficará sempre a pergunta no ar: será que vale a pena?
 
É inegável que existem ainda muitos lugares onde a liberdade de expressão, a liberdade de escolha e outros direitos considerados fundamentais têm ainda que ser conquistados. Mas a que custo e em detrimento de que outras prioridades e valores? Tendo vivido nalguns desses lugares, a questão que me coloco sempre enquanto artista é a seguinte: dentro de que parâmetros posso trabalhar sem violentar susceptibilidades ou violar as leis, e se valerá a pena tal esforço?
 
A imposição de valores promovida pelo Ocidente de forma agressiva, suscitando reivindicações muitas vezes desadequadas às reais necessidades da diversidade humana, afigura-se-me cada vez mais arrogante. Os resultados da ‘nossa’ postura estão à vista. Enquanto artista recuso-me a ser um fundamentalista dos valores [e das estéticas] Ocidentais. Pergunto-me: será hipocrisia trabalhar dentro dos parâmetros permitidos pelas leis e costumes vigentes noutros lugares? É possível encontrar consensos que permitam à arte operar a mudança de uma forma que não seja desadequada às necessidades locais? Valerá a pena o esforço ou vale mais a pena baixar os braços perante as dificuldades impostas?
 

E aqui, onde toda a liberdade do mundo nos é concedida? Fará sentido revisitar a barca? Valerá a pena?  [jfx]

artistas residentes [OD]:
[OD] às 19:19
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Sexta-feira, 20 de Junho de 2008

Aguarela

barcas apanhadas a dançar...

[jfx]

 

música: sample/loop musical: alva noto + ryuichi sakamoto
artistas residentes [OD]:
[OD] às 21:57
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Quinta-feira, 5 de Junho de 2008

Ship of Fools/Ship of Hope - One World

 
Segue neste momento a caminho da Austrália uma barca.
 
Há coisa de quinze dias quis a coincidência que uma galeria em Melbourne nos comunicasse a intenção de promover uma exposição subordinada ao tema Barca de Esperança/Barca de Loucos – Um Só Mundo. Caso estivessemos interessados enviar-nos-iam uma maquete que deveríamos construir e trabalhar sem quaisquer limitações.
 
Para além das conversas que já tínhamos tido para acertarmos as primeiras ideias em torno da nossa própria barca, o trabalho que o Rui, o Fernando e eu realizámos sobre a maquete ajudou a dar um empurrão suplementar. Ainda que não saibamos ainda qual o teor ou o aspecto final da exposição no Centro Cultural de Cascais, muitas ideias tomaram raiz durante o interlúdio jocoso que o trabalho em torno deste projecto proporcionou. E se é certo que no plano formal nada aproxime estes dois projectos, no plano filosófico não andarão muito distantes um do outro, e por essa razão parece-me oportuno deixar aqui registado parte do texto que a galeria Australiana nos facultou:
 
A Barca dos Loucos
 
A Barca dos Loucos representa a humanidade no seu todo navegando através dos mares do Tempo.
 
Um navio, uma pequena embarcação, uma barca perdida.
 
Para nosso grande infortúnio, todos somos loucos:
 
Vivemos exclusivamente para o Aqui e Agora e consumimos de forma irracional; somos perdulários, deitamos tudo abaixo, queimamos a terra e plantamos colheitas sedentas de água num clima que se torna cada vez mais tórrido, na crença de que o poderemos fazer para sempre.
 
Entretanto a nossa barca anda por aí à deriva sem nunca conhecer o rumo, nunca encontrando o cais.
 
Enquanto artistas estamos cientes da responsabilidade que temos, de alertar o público para  questões como o aquecimento global, as suas causas e efeitos, e de lançar a todos o desafio de ver as coisas de outra maneira, quanto mais não seja no breve instante de contacto visual com a nossa obra, e de suscitar as perguntas: Qual a nossa posição no mundo? De que modo o afectamos? O que é que podemos fazer?
 
Talvez seja uma aspiração excessivamente ambiciosa, mas acreditamos que os tempos de uma Arte que se referencia a si própria e que explora apenas a Forma sem grande conteúdo ideológico é coisa do passado. O tempo urge e são os artistas que devem tomar o comando na procura de atingir novos públicos e questionar de forma pertinente o modo como vivemos. Os artistas têm que estar informados para poderem informar. A corrente só mudará quando todos remarem numa direcção comum – nessa altura governos, grandes empresas e o público tomarão consciência do quanto a situação é urgente e, com alguma sorte, a nossa barca talvez chegue a bom porto.
 
Quer o faça de modo subtil, quer o faça com mão pesada e espalhafato não temos dúvidas de que uma das armas mais eficazes para abordar certas questões está nas mãos do artista. Todos vivemos cada vez mais entorpecidos pelos media – especados diante do televisor sem capacidade para discernirmos a notícia que ora escutamos daquela que a antecedeu. Somos exímios nas artes do ‘Streaming’, do ‘Podcast’, do ‘Download’, perfeitamente capazes de surfar, escutar e ler opiniões favoráveis e divergentes sobre tudo e mais alguma coisa – mas não será tudo isto um pouco de mais? Não estaremos a atingir rapidamente o ponto de saturação?
 
Temos que procurar novas vias para educar.
 
Enquanto artistas temos que assumir a responsabilidade e aliarmo-nos a outros na tarefa de inverter a força e a direcção desta corrente. A Arte tem o seu papel a desempenhar. [tradução/adaptação jfx]
 
 
São ideias a ponderar e que certamente nos afectarão de uma maneira ou de outra no que respeita ao nosso percurso em conjunto. Se encontrarão ou não expressão plástica no projecto 3 homens numa barca será outra questão.
 
Entretanto, a brincar a brincar, chegámos a ‘Uma Barca de Esperança Num Mar de Loucos que ficará exposta juntamente com o trabalho de outros 33 artistas de 14 países no Yarra Sculpture Gallery em Melbourne de 18 de Junho a 6 de Julho, e que acompanhará em seguida a exposição individual de Julie Collins e Derek John no The Ballarat Mining Exchange, Ballarat, Australia entre 2 e 10 de Agosto de 2008.  [jfx]
 
Para ver todas as barcas desta exposição siga o seguinte Link:
http://shipoffools-shipofhope.blogspot.com/
 
 
 

 

artistas residentes [OD]:
Sexta-feira, 30 de Maio de 2008

Revisitada?

Quando o Fernando nos deu a notícia de que tínhamos recebido indicação favorável da Fundação D. Luís no sentido de virmos a ter uma exposição em conjunto enquanto artistas residentes da Oficina do Desenho no Centro Cultural de Cascais, confesso que no meu entusiasmo talvez me tenha precipitado e atropelado de algum modo as sensibilidades dos meus companheiros de oficina ao sugerir que se revisitasse um tema que me é particularmente querido e sobre o qual Rui Aço e eu próprio nos havíamos já debruçado em 1999. O tema da Barca. Tal iniciativa caberia por direito ao mentor do projecto OD, Rui Aço, ou a Fernando Vidal, há mais tempo a seu lado do que eu e portador da boa nova; e a mim de lhes seguir os passos. Se o fiz foi apenas com o intuito de lançar para o ar um tópico para discussão, jamais por imposição, recordo-me ainda de como o Fernando, não sem razão, ficou mais silencioso ao sentir o entusiasmo do Rui aliar-se ao meu e que o assunto ficara arrumado sem verdadeiro debate a três. Foi bom sentir, e ler agora nos primeiros textos colocados pelo Fernando que a rejeição e o silêncio deram lugar à reflexão e a aceitar o desafio.

 
No ar ficara de facto esta primeira ideia: a barca revisitada. Revisitada porque em 99 lançara o desafio a 10 artistas para a mesma temática numa pequena, pouco conhecida e entretanto desaparecida, galeria de Cascais, a galeria Castelo Maior, e que foi o ponto alto de um breve périplo enquanto director artístico antes de partir para Berlim. Acima de tudo o sucesso da exposição ‘10 artistas/uma barca’ deveu-se à dinâmica e ao entusiasmo que os próprios artistas incutiram ao projecto - aliás o espírito que se vivia era o espírito de convívio e de tertúlia entre artistas, músicos e demais intelectuais que por lá passavam.
 
Mas se o passado não deve ser revisitado nada nos impede de reconsiderar a barca – a 'nave' na qual nos encontramos neste momento e que nos transporta temporariamente aos três enquanto não embarcarmos, individualmente ou em conjunto, nas seguintes. Enquanto artistas residentes do projecto OD trilhamos um percurso que é simultaneamente individual e comum - todos remamos aparentemente a ritmos e em direcções diferentes mas o certo é que no final desse esforço a nave, inevitavelmente, quer o queiramos quer não, nos conduzirá a um porto comum. A meu ver é isso que torna esta nova aventura tão interessante.  [jfx] 
artistas residentes [OD]:
[OD] às 17:37
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